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Os efeitos da progressiva mudança de ênfase da política agrícola brasileira de crédito rural para seguros e manutenção de preços já começam a ser vistos no mercado e, como em toda mudança, haverá vencedores e perdedores.

Para os players que financiam o agronegócio – bancos, indústrias e tradings – como está o cenário?


Porque o sistema de crédito rural não funciona mais

Como apontado por Adeniro Vian, diretor da IBD Agro, a falência do atual sistema de crédito rural deve-se a seu anacronismo – ele foi implementado em 1965 e, embora apropriado para a conjuntura da época, não satisfaz mais as necessidades do agronegócio brasileiro.

Na década de 1960, a política agrícola tinha foco no crédito. O Brasil contava com 422 instituições financeiras que financiavam a produção de 30 a 40 milhões de toneladas por ano, concentradas no Sul e Sudeste do país. Nessa época, uma parcela mínima da produção era exportada, concentrando os recursos no mercado interno.

Hoje, 50 anos depois, tivemos um crescimento inverso entre produção e oferta de crédito. Enquanto o país produz 288 milhões de toneladas por ano, em culturas espalhadas em praticamente todos seus Estados, temos apenas 118 instituições financeiras, das quais apenas 9 aplicam no crédito rural focando em pessoas jurídicas e em cinco commodities. Entre instituições, 4 correspondem à 80% do crédito total no Brasil no agronegócio.

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Entre diversos fatores, um agravante para o não funcionamento do sistema se deve em boa parte aos índices de juro do agronegócio. Enquanto bancos podem se beneficiar de 12% de juros ao mês com opções como cheque especial e cartão de crédito, os 5% anuais do crédito rural não satisfazem o custo de oportunidade do capital das instituições financeiras.

Com imposições cada vez menores do BC sobre depósitos à vista e flexibilização do spread de LCAs, grandes bancos começam a oferecer, ao invés do antigo crédito subsidiado, crédito a juros livres, entrando em concorrência não apenas com outros bancos, mas com todo o ecossistema de crédito paralelo que surgiu organicamente – e cresceu – nas últimas três décadas.


A mudança está acontecendo agora

Com a chegada da PEC do Teto, da quebra do Tesouro Nacional e da cartilha liberal do novo governo, o crédito rural subsidiado está diminuindo significativamente. Diferentemente do que foi feito desde 1965, os subsídios terão de ser alocados em segmentos específicos da agricultura. No plano safra corrente, o Banco Central já cortou 34 bilhões de reais para a agricultura.

Ainda sem uma ação decisiva, mas em consonância com a postura adotada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, o crédito rural está sendo descentralizado em um momento no qual não existem mais recursos para o subsídio. O pouco disponível será direcionado para agricultura familiar, originadora de 70% do consumo interno e essencial para segurança alimentar do Brasil.

Enquanto isso, grandes e médios produtores terão que buscar recursos não-subsidiados no mercado tradicional de crédito a juros livres ou no mercado paralelo. Esse momento de flexibilização da legislação tem sido explorado por grandes bancos para aumentar a sua ainda pequena participação no mercado de crédito agrícola, dominado por grandes multinacionais como tradings e indústrias de insumos agrícolas.

Vale ressaltar que, em outros países, o mercado de crédito tradicional é o motor do agro. Porém, no Brasil, a antiga política de subsídio, aliada às altas taxas de juros do sistema convencional, levou à criação do mercado paralelo de crédito, baseado em multinacionais que, na prática, passaram a operar como bancos.


Oportunidades para quem está preparado

Com a queda do crédito subsidiado, uma parcela maior do crédito será fornecido a juros livres e, pois, maior interesse dos bancos em participar do funding do agronegócio. Haverá maior demanda para financiadores como multinacionais e revendas, que terão que competir com bancos cujas amarras estão sendo paulatinamente soltas pelo BC.

Esse movimento não é uma previsão, é uma onda que vem se aproximando há anos e cuja crista finalmente chegou.

No Mato Grosso, por exemplo, o maior Estado em produção de soja no Brasil, 69% do crédito rural na safra de 2017/18 foi captada fora do sistema financeiro, através do uso de recurso próprio, tradings e indústrias de insumos. Paralelamente, na safra 2018/2019, o mercado financeiro convencional aumentou sua participação em 3% do financiamento no Mato Grosso. Isto é, players convencionais no mercado de crédito paralelo do agro brasileiro, já afetados pelo tabelamento do frete, começam a disputar espaço com o mercado financeiro tradicional.

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(Composição do funding do custeio da soja para safra de 2008 a 2019 no Mato Grosso, segundo o IMEA)

A maior demanda vai levar aos bancos produtores que não possuem histórico de crédito no mercado convencional. O financiamento desses prospects demandará informações não antes disponíveis com base na capacidade produtiva de suas terras e, paralelamente, o acompanhamento de penhores agrícolas para minimizar fraudes e desvios, vista a distância entre credores e devedores.

Maiores riscos, maiores oportunidades. Bancos, tradings e indústrias que tiverem uma política de concessão de crédito sólida e mitigação ativa de riscos aproveitarão o momento de desregulamentação do mercado – e quem não levar a sério concessão de crédito ficará no meio do caminho. Como você e sua empresa estão nesse aspecto? Estão preparados para a mudança no mercado de crédito agrícola?


Fontes: Notícias agrícolas / IMEA / Canal Rural