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No primeiro artigo dessa série sobre monitoramento de campo e suas limitações, comentei em linhas gerais sobre os problemas que o mercado de crédito para o agronegócio enfrentou no Brasil nos últimos anos. Expliquei também que parte disso vinha do uso inapropriado do melhor instrumento de colaterização que temos para concessões de crédito no agronegócio – o Penhor agrícola – e da ausência de uma postura de cobrança ativa com vistas a recuperar o crédito antes do inadimplemento se constituir.

Agora, compartilho diversas notícias que mostram que o cenário atual não surgiu do dia para noite – ele foi construído paulatinamente, ao longo de diversos anos. Compartilho também algumas anedotas do nosso dia-a-dia aqui na TerraMagna, preservando a identidade dos envolvidos – espero que sirvam não apenas como fatos curiosos, mas também como alertas para que você faça uma gestão mais consciente da sua maior proteção – o Penhor agrícola.


“Revendas sempre recebem”? 2015/16

Quem está no financiamento do agronegócio sabe que o volume de dívidas que o produtor paga em uma mesma safra é limitado pela sua produção. Se a produção for menor do que o total das parcelas de dívida que o produtor tem para pagar, fatalmente alguém ficará sem receber.

Muita gente pensa que revendas de insumos, devido à sua proximidade com o produtor e presença no campo, acabam sendo a primeira da lista de recebimentos. Porém, o mesmo problema pelo qual as tradings estão passando hoje já foi enfrentado pelas revendas em 2015/16. Até então, o barter era entendido como um instrumento seguro, justamente pela crença na eficácia da cobrança do colateral.

O mercado entendeu tarde que o colateral só é eficaz se ele estiver lá para ser executado.

A inflexão em 15/16 foi interessante, devido ao descompasso entre o otimismo do mercado e a inadimplência que ocorreu depois, mesmo no caso de revendas. Algumas revendas fazem visitas de campo com uma periodicidade extraordinária, chegando a visitar uma mesma fazenda 7 vezes durante uma safra. A questão, porém, não é o número de vezes que você visita uma lavoura, mas visitar a lavoura no momento certo.


Inadimplência em CRAs – 2017

Alguém lembra da queda nas emissões de CRAs entre 2017/18?

Fonte dos gráficos: Anuário Uqbar 2019

Apesar de a incerteza eleitoral e as taxas de juro do período contribuírem para a redução, a explicação envolve também a perda da credibilidade do instrumento devido a alguns títulos subjacentes que sofreram com inadimplência.

Quem tiver curiosidade e quiser ver o que acontece com uma estrutura quando o penhor subjacente não é gerenciado e executado a tempo, basta acompanhar os “Fatos Relevantes” de alguns CRAs do período, tanto em grãos quanto em cana-de-açúcar.

A credibilidade dos CRAs junto ao mercado de capitais está felizmente se recuperando, embora lentamente.

Um fato interessante revelado em conversa com um dos líderes na originação de CRAs foi que, apesar de a CPR atrelada a penhor ser factualmente um lastro que oferece segurança para a estrutura, a venda da estrutura para investidores torna-se mais complexa do que com, por exemplo, duplicatas – simplesmente devido ao fato de o título subjacente ser “mais conhecido”.

Como bem colocou Fernanda Mello, sócia-fundadora da Vert:

É preciso analisar com cautela. O CRA é só uma casca. O risco é do lastro que está embaixo, que pode ser de um devedor único ou de centenas de devedores, por exemplo.

Não é suficiente, porém, apenas entender qual é o lastro. Garantias devem ser acompanhadas, geridas e, caso necessário, executadas, a fim de que sejam eficazes – e não apenas papéis vazios que não contribuem para segurança da operação financeira.


Tradings sofrem com calotes e onda de RJs – 18/19

Algumas pessoas que financiaram produtores em 2015 dormiram acreditando que seu crédito estava seguro, mas acordaram com esses mesmos produtores em recuperação judicial – mesmo aqueles não possuíam registro havia dois anos nas juntas comerciais. Isso se perpetua no cabo de guerra da entrada X derrubada da RJ de produtores rurais contra seus financiadores.

Tradings, que entraram no mercado de financiamento de produtores devido às margens estreitas nas operações de compra e venda de commodities, estão reduzindo sua participação no mercado de crédito devido ao volume de crédito exposto que a insegurança jurídica causa.

Assim como revendas, tradings são empresas que estavam no “topo da lista” para o recebimento, devido à sua criticidade na matriz de financiamento, escoamento, serviços prestados aos produtores e presença no campo.

Qual a similaridade entre todos os que sofreram com calotes no agronegócio nos últimos anos? Todos contavam com operação de campo própria ou terceirizada. Todos tinham pessoas no campo e, todavia, isso não foi suficiente para evitar o inadimplemento.


Safra de 19/20 – como será?

Apesar do cenário que se constituiu nos últimos anos, calotes não são a regra do agronegócio. A maior parte dos produtores preocupa-se em honrar seus compromissos, apesar das margens cada vez mais estreitas.

Porém, essas mesmas margens cada vez mais estreitas afetam revendas, agroindústrias e tradings e tornam a inadimplência de alguns poucos produtores dolorida. O papel que esses players desempenharam no agronegócio nas últimas três décadas dificilmente pode ser exagerado.

Resta àqueles que quiserem se manter competitivos no mercado – tanto pela saúde do seu balanço quanto pela manutenção das taxas de juros tácitas para seus clientes – reduzir o risco de suas operações. Ferramentas financeiras, de seguros e de gestão eficazes serão essenciais para quem quiser atravessar a arrebentação.