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Evento com discussões e temas de altíssimo nível, o XP DATAGRO AgriFinance Brazil apresentou as principais ameaças e oportunidades para o agronegócio brasileiro sob a ótica de acesso a capital. Apesar de todos os painéis terem sido extraordinários, há um deles que quero compartilhar com vocês: o “Mercado de Capitais”.

Não é segredo que o crédito no agronegócio está passando por um processo de, senão desestatização (esse é um termo polêmico, principalmente para quem fornece esse crédito), pelo menos, desregulamentação. No Congresso Brasileiro do Agronegócio da ABAG, realizado no dia 5 de agosto, um executivo do Santander comentou ser “super saudável” concorrência na concessão de crédito ao agronegócio, “ainda mais quando o preço não é tabelado”, em referência aos chamados recursos obrigatórios.

Com a SELIC em baixas históricas (e com previsão de redução), as taxas praticadas a juros livres no agro ficam atrativas mesmo para o custo de oportunidade dos bancos. Estamos vendo isso: bancos que até então tratavam apenas carteiras de grande produtores no agronegócio estão aumentando a sua capacidade de distribuição por todo o país. Claro, demorará para algum outro chegar perto da carteira de R$188 bilhões do BB, mas o tiro da largada já foi dado.

Apesar de bancos serem um caminho óbvio para obter financiamentos – afinal, conforme o executivo Carlos Aguiar colocou, o financiamento do agro no mundo é “praticamente 100% bancário” – o agro brasileiro inovou em mais esse aspecto: grande parte da matriz de funding da soja está em tradings, revendas e agroindústrias.

Todavia, agora com a redução da taxa de juros, ao invés de optar pela solução que “funciona lá fora”, temos a oportunidade de inovar mais uma vez.

Acesso ao mercado de capitais no agronegócio

Os cinco participantes do painel “Mercado de Capitais” foram

  • Pedro Freitas, Sócio de Mercado de Capitais da XP, moderador do painel.
  • Fernando Lobo Pimentel, Diretor da Consultoria Agrosecurity Gestão de Agro-Ativos e Diretor de Operações da Agrometrika Tecnologia e Crédito.
  • Fabio Jacob, CFO da Belagricola.
  • Guilherme Cavalcanti, Diretor Global de Finanças e Diretor de Relações com Investidores da JBS.
  • Paulo Adalberto Zanetti, Diretor Superintendente do Grupo Cocal.

Por que o painel do XP DATAGRO AgriFinance Brazil foi tão extraordinário?

Todos os painelistas estiveram, de alguma forma, envolvidos na constituição de CRAs. Porém, eles foram muito bem selecionados para representar a flexibilidade do instrumento em atender diversos tipos de empresa.

O instrumento é muito criticado (não totalmente sem razão) devido ao engessamento e ao fato de não ser usado como uma forma de acesso do produtor rural ao mercado de capitais, mas como uma forma de captação barata para empresas do setor (as operações de risco concentrado). Uma frase representativa é que “os CRAs deixaram de fora o produtor rural“.

Porém, o recente CRA da Belagrícola, da qual Fabio Jacob é CFO, mostra que o CRA é um instrumento viável mesmo para o pequeno e médio produtor. O lastro foi constituído sobre os recebíveis de mais de 3000 produtores (!), um nível de pulverização cujo nível de organização demandado seria proibitivo.

Interessante notar, porém, que a organização foi possível por conta do uso do sistema Agrometrika apresentado pelo dr. Pimentel. O serviço possibilitou organizar e selecionar, de acordo com critérios objetivos de elegebilidade, os recebíveis que poderiam constituir lastro na operação. Um trabalho que seria francamente inviável via organização física da documentação.

Para acessar o mercado de capitais, todavia, são necessárias governança e organização na gestão da empresa. A participação do diretor Zanetti, do grupo Cocal, foi interessante por mostrar que a entrada no mercado de capitais é um processo que, com disciplina, pode ser atingido se devidamente orientado por um parceiro. A trajetória do grupo até a entrada no mercado de capitais – passou pela estruturação interna, uma primeira emissão e, depois, rating brAA+ e nova emissão.

Finalmente, Cavalcantti, ex-CFO da Fibria, contou como levantou cerca de R$5 bilhões em CRAs quando estava na Fibria. Esse é um exemplo extraordinário de como foi possível construir a maior fábrica de celulose do mundo usando o investimento praticamente apenas de pessoas físicas (vale lembrar que, como CRAs são isentos de imposto de renda para PF, 90% são investidores na física). Além disso, lembrou como o mercado de CRAs evoluiu: o primeiro CRA que fizeram teve um prazo de 3 anos e o último, 7 anos.


O painel “Mercado de Capitais” foi cirurgicamente desenhado para mostrar que o CRA é um instrumento eficaz e versátil para acesso a financiamento barato e que, como efeito colateral, desenvolve a gestão e governança na empresa emitente.

Apesar das críticas à forma pela qual o instrumento foi utilizado até hoje e ao seu engessamento, ele se mostrou uma ferramenta minimamente capaz de atender à sua finalidade. É evidentemente necessário melhorá-lo, mas os mais recentes exemplos de seu uso e a situação positiva do mercado em 2019 mostram o potencial dessa alternativa de captação.